Eu e o "Trem noturno para Lisboa"

Terminei a leitura de "Trem noturno para Lisboa". Uma experiência diferente de todas que um livro me proporcionou até então.

Através da narrativa de Pascal Mercier, o verdadeiro "ourives das palavras", você tem a impressão de se aprofundar o mais intensamente possível na alma humana. O homem escreve reflexões duras sobre as escolhas que fazemos da vida, sobre a (in)capacidade de mudar o rumo dos acontecimentos, sobre a falta de comunicação entre pessoas que se amam e sobre como uma palavra, apenas uma delas, pode mudar o rumo de uma vida inteira.

O autor nos faz, através de Raimund Gregorius, que toma o trem de Berna (foto) para Lisboa, mergulhar na mente e na vida de Amadeu de Prado. Ele faz mais: tenta nos apaixonar por Amadeu, por suas ideias, por sua rebeldia, por sua precocidade. Amadeu era um homem carismático, o tipo que é amado ou odiado, nunca ignorado.

"Alguns de nós ficaram apaixonados por ele, por seu temperamento excessivo, pela sua generosidade transbordante e pela sua tenaz obstinação, pelo seu destemor e seu entusiasmo fanático...Sem dúvida, era um jovem orgulhoso. Mas era um orgulho tão indomável, tão desmedido, que nos deixava atônitos, olhando sem reação para aquele milagre da natureza que tinha suas próprias leis. Aqueles que o amavam o viam como um diamante bruto, uma pedra preciosa ainda não lapidada. Os que o rechaçavam se exasperavam com a sua falta de respeito que podia ferir e com aquela espécie de presunção muda, porém indisfarcável, própria de todos aqueles que são mais rápidos, mais claros e brilhantes do que os outros e têm consciência disso...Era injusto que alguém pudesse ter tantas vantagens mais que os outros, e isso o tornava um imã para a inveja e o despeito. Mas, mesmo os que sentiam isso nutriam uma admiração secreta por ele, pois ninguém podia negar: era um jovem capaz de tocar o céu." 

"Era um homem muito dominador. Não era briguento, mas era dominador, brilhante, superior...Ocupava-se muito consigo próprio e podia ser egocêntrico até o limite da crueldade".

Amadeu vivia em conflito: não suportava o amor incondicional de uns, nem o desprezo de outros, quando sentia que fora mal compreendido. Podia ser generoso e duro ao mesmo tempo. Era um ateu que precisava da arquitetura das igrejas e do silêncio dos conventos para viver. Achava que confessar-se a um padre era humilhante. Rejeitava Deus a todo instante mas, em um determinado momento da sua vida, reconheceu a sua existência e a sua vitória.

Poucas mulheres marcaram sua vida: Maria João, a que ele amava por não ter se deixado ofuscar por ele, mas nunca a tocou: era a sua grande amiga e confidente. Fátima, a que ele se casou: ele a mimava, ela queria o seu respeito. E, Estefânia Espinhosa: a que ele viveu uma paixão de verdade, ardente, de consumir sua alma e a dela ("... isso aqui era completamente diferente, muito mais selvagem, lava em brasa pouco antes da erupção...ele lutava contra a avalanche interior do desejo, desviando o olhar faminto quando via a moça.").

Trecho de Marco Aurélio citado no livro:

"Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes.".

Alguns pensamentos de Amadeu:

"Como distinguir entre um sentimento que se deve levar a sério e um mero capricho?"
"A quem, então, devo dar importância, se não a mim mesmo?"
"Viver o momento: soa tão certo e belo, mas quanto mais desejo isso, menos percebo o que significa"
"Perdoar não pode significar submissão."

Fantástico! Vale muito a leitura

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